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Se imagina numa espécie de octógono e você tá vendado, não dá pra tentar prever o próximo movimento do seu adversário, você tá sozinho e tentando se defender. No primeiro soco, tudo beleza, levanta, se sacode, se ergue. É fácil. Foi só uma porrada, você é mais que isso, você sabe disso. Um espaço de tempo surge, a guarda sobe, a respiração se acalma, os pensamentos se organizam, você escuta um movimento, chão. Tudo bem, é só levantar, não se atreva a ficar aí, você é mais que isso. O ciclo se repete, tempo, guarda, respiração, ordem, chão. Lá pro quinto soco, você já tá de saco cheio, não aguenta mais. No último, você cai. As duas mãos fechadas em punhos estão no chão enquanto você tenta se manter, pelo menos, de joelhos.
E repete, você é mais que isso. Então todas as suas dúvidas sobre si mesmo surgem e a escuridão de estar com os olhos vendados vai pra sua mente. Todos os seus pensamentos se embolam, sua respiração reduz, não tem ninguém te sufocando, não tem ninguém te tocando. Não tem ninguém. É só você, a tua luta é com você mesmo. Se defender significa se machucar, mas ficar sem fazer nada significa ficar no chão, dói nas duas vias e o desespero te persegue. 
A cabeça pesa, a mandíbula trava, a respiração não se acalma, os pensamentos não organizam, a tua guarda não levanta e por que não levanta? Tem que levantar, tem que reagir, tem que enxergar, tem que pensar, se todo mundo consegue, você consegue porra. Levanta, vai ficar aí? Tá achando que é especial? LEVANTA PORRA. Mas pra que levantar se você sabe que o próximo soco tá vindo? Você sabe que ele tá ali, pouco interessa a direção que ele vem, pouco interessa a intensidade, ele tá ali. Pra que eu vou levantar?
Duas opções estão bem na sua frente, seguir ou ficar. A escuridão continua ali, a falta de ar, tudo. O que tem que mudar é você, é hora de decidir se vai se machucar se defendendo ou apanhando, mesmo que seja de você mesmo. Tudo é uma grande confusão, como se todo o espaço-tempo fosse uma massa extremamente densa e pesada, mas isso não pode interessar agora. As suas dúvidas sobre si não podem te vencer agora. A questão nunca parece vir uma com uma interrogação no final, parece que tudo já está definido. Você nunca se sente no controle. É destino, você repete incansavelmente pra assim se poupar de perceber que mesmo o destino tem suas bifurcações. 
A venda não vai sair, os socos já foram dados. 
A mandíbula continua travada, os pensamentos embolados.
O espaço de tempo é dado, é a hora que você decide. 
Não é certo, não é errado.
É você consigo mesmo. Então?

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